Zeca Fernandes · Galerista e curador da exposição
O olhar que traduz a simplicidade da vida é o mesmo que cura nossas angústias, medos e segredos. Mistérios de um mundo onde a captura da realidade jamais caminha despercebida. E olha que já são mais de 20 anos de estrada revelando talento, sensibilidade e uma generosidade que transborda os mares do sertão.
A natureza precisa se reinventar. A luz, muitas vezes em silêncio, pede licença para se apropriar do trabalho dessa fotógrafa, artista que tanto nos inspira. A satisfação e o reconhecimento são frutos da evolução, da disposição e da disciplina de um olhar mais que apurado, um olhar humano.
Gabriela Daltro · Produção artística
Imagino o ano 1. Estamos em 2005 e reconheço uma Luciana, médica, com sua câmera na mão. Olhar já fazia parte da sua vida muito antes disso.
Ao longo dos anos, percorreu cidades, desertos e silêncios. Alguns ela sempre volta. O sertão da Bahia e a aurora boreal na Noruega a encantam com a mesma força. Vi o tempo da espera, a repetição do gesto, a emoção com o que viu.
Hoje estamos aqui para olhar o que foi feito, para acompanhar o percurso de um tempo. VINTE E UM fala sobre continuidade. Sobre um olhar que não perde a capacidade de se transformar.
Fabio Gatti
A fotografia, historicamente, foi uma tecnologia masculinista — razão pela qual mulheres como Anna Atkins, Julia Margaret Cameron e tantas outras foram obliteradas, durante décadas, das narrativas hegemônicas sobre a imagem técnica.
É neste cenário que a presença, a atuação e a história de uma fotógrafa viajante negra, médica e nordestina como Lu Brito importa, e muito. Extrapolando os limites socialmente impostos ao seu corpo, ao seu gênero, à sua raça e à geopolítica do seu território de origem, ela tanto se tornou uma oftalmologista respeitada quanto se consolidou como fotógrafa reconhecida nacional e internacionalmente.
Ricardo Sena
É um privilégio acompanhar e batizar a primeira exposição, em 2015, de Luciana Brito — assim nasceu Ludosmundos. Um nome no instante em que o olhar se torna geografia.
Lu não fotografa lugares. Ela os decifra. Da luz quente do sertão baiano ao gelo cortante da Patagônia, do vulcão no Chile à aridez do Atacama, transita entre continentes sem perder o eixo. O que vemos é relação, é tempo gasto, é poeira no sapato.
Uiler Costa-Santos · Uma paz desorganizada
Quando me aproximo do trabalho de Luciana Brito, o que reconheço primeiro é o jeito como ela se relaciona com o mundo. Uma maneira de atravessá-lo que tem menos de escolha do que de condição. Fotografar deixou de ser, para ela, o motivo da viagem. Virou o meio pelo qual a viagem se torna suportável.
Na clínica, corrige olhos, reorganiza focos, restitui o que se foi perdendo. Na fotografia, faz o contrário: recusa a visão estabilizada e fotografa o que está prestes a deixar de existir.
Dentro de cada olho humano existe uma região incapaz de produzir imagem. Um ponto cego. Cada vez que vemos, vemos com lacuna. A diferença é que normalmente não sabemos disso. Como oftalmologista, ela sabe. Como fotógrafa, faz da lacuna o lugar da imagem.
“Eu não busco. Eu sou arrebatada”, diz. O que a emociona não é a beleza da paisagem: é a aridez, a falta, o vazio. Volta dessas viagens sabendo que é ínfima. Essa desimportância liberta.